segunda-feira, 7 de março de 2011

NA ROLETA DA SORTE

Mais um assunto em pauta no senado federal promete gerar uma polêmica que não é nova, mas recorrente há quase um século. É a liberação ou não dos chamados jogos de azar, mas que são de sorte para quem ganha. Creio ser esta discussão de um falso moralismo histórico, ou mesmo de uma situação hipócrita explícita. Não pretendo neste espaço defender ou condenar a liberação do jogo, mas é um assunto que merece uma reflexão.
Tudo começou com a proibição do funcionamento de cassinos no país na segunda década do século XX. Mas esta medida de força não impediu, mesmo com repressão policial, o seu funcionamento clandestino em todos os cantos do país. A história policial relata a intensidade de confrontos entre policiais e frequentadores de cassinos ilegais. Mesmo assim, como desmoralização da repressão, continuou a funcionar, às claras ou de forma disfarçada, a instituição brasileira chamada jogo do bicho, criado pelo barão João Batista Viana Drummond, em 1892, como forma de financiar um zoológico. Daí o fato de relacionar os números com determinados animais. Até hoje é comum ver pessoas fazendo, nas ruas, uma fezinha.
Somente em 1934, no governo de Getúlio Vargas, e durante toda a ditadura do Estado Novo, o funcionamento de cassinos ficou liberado. O símbolo deste período foi o Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, que além de jogos de azar também apresentava resplandescentes shows musicais. Foi uma fase áurea de musicais, abrindo um mercado de entretenimento que empregava dançarinas, atores, músicos e compositores. Isso também ocorria em outros pontos do país.
Com a democratização e o governo presidencial do cuiabano Eurico Gaspar Dutra, um puritano de carteirinha, o jogo de azar foi proibido, sob o pretexto de atentar contra os princípios morais da população brasileira. O cassino da Urca foi fechado, como todos os outros cassinos, provocando uma massa de desempregados, principalmente de artistas que tiveram o seu mercado de trabalho restringido.
Volto à questão da hipocrisia sobre o assunto. Apesar do jogo proibido, o governo federal, através da Caixa Econômica Federal, tem o monopólio no país de todo tipo de jogos, tantos que não sei o nome de todos eles. Também não tenho dúvida de que são jogos de azar, pelo número reduzidíssimo de ganhadores e uma extraordinária massa de perdedores.
Agora, um novo projeto apresentado pelo senador Mazarildo Cavalcanti libera os jogos de azar ao permitir a existência de cassinos em hotéis nas vastas regiões da Amazônia e do Pantanal. Se vai ter sucesso ninguém sabe, mas esta nova empreitada pode ampliar o mercado do turismo e também inúmeras vagas de trabalho direto ou indireto. A polêmica está posta e se ampliará com a tramitação do projeto nas comissões legislativas antes de ser encaminhado ao plenário para ser aprovado ou rejeitado. Lembro na década de oitenta, em Corumbá, quando um empresário começou a construir nas barrancas do rio um hotel, de belas e arrojadas linhas arquitetônicas, na esperança da liberação de cassinos. Deu no que deu: um grande prejuízo.
Como a proposta não libera jogos em todos o país, mas nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, tudo pode acontecer. É só esperar.

Um comentário:

  1. Gostaria de saber qual regime vivemos no Brasil,porque tudo e proibido.

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