sexta-feira, 18 de março de 2011

PRA QUE TANTO POPULISMO NO BRASIL, OBAMA?

Por Marcus Lemos.
 
"Ui lóvi iu, Obama!””Uélcomi tu Brezil, Baraqui!” são manifestações calorosas de brasileiros que ouvi em algum telejornal por aí, enquanto me ocupava com alguma outra coisa. É a nossa famosa hospitalidade em prol das relações diplomáticas internacionais, minha gente! Hospitalidade, é claro, muito bem planejada – pelos americanos.
Quando os telejonrais dão uma brecha sobre o Japão, somos constantemente anunciados a respeito da vinda do presidente norte americano ao Brasil esse final de semana. E não só os jornais, mas programas como Domingão do Faustão, Fantástico, Domingo Espetacular, entre outros populares têm sido usados como disseminadores de sua vinda e, claro, orquestrados por Washington DC. Na internet, ações que lembram a sua campanha eleitoral nas redes sociais se repetem, agora em nossas terras, que convocam aos “internautas” brasileiros a postarem mensagens de boas vindas ao presidente – e concorrer a iPhones, iPads e outros brindes. No Rio, calçadas por onde ele passará estão sendo reformadas às pressas e (ouvi dizer) que 150 mil bandeiras dos EUA foram compradas pelo Estado para distribuir aos presentes em seu discurso. No G1, flagras orgasmáticas dos helicópteros norte americanos são registrados e inseridos no portal. Internautas registram helicópteros americanos sobrevoando o Rio - Portal G1
Enquanto isso, as leis da visita auto-convidada são ditadas pelos norte americanos, como se ignorassem que não são eles os anfitriões. Helicópteros da Marinha deles sobrevoam Brasília e Rio; caças F-5, Mirage e Super Tucanos estão em prontidão no Galeão e homens das forças armadas brasileiras estão prontos para agir por terra, céu e mar. Segundo o portal G1, a prefeitura do Rio disponibilizou aos serviços secretos dos EUA toda a infraestrutura do centro de operações do Serviço Público do Rio, que conta com 500 câmeras pelas quais se vigia e comanda a segurança pública na cidade. Espaço aéreo nas duas cidades por onde passará será restrito e, no próprio discurso, brasileiros não poderão nem levar sacolas ou faixas – nem as com boas vindas. Ou seja: abaixamos as calças em nossas terras. Nesse final de semana, o Rio será um pedacinho dos EUA. E quem for lá, por favor, me traz um iPad.
Uma ação duvidosa é feita por um lado, que parece querer nos fazer engolir um populismo barato e aceitar o quanto o Barack Obama é lindo e maravilhoso para que sua popularidade seja aumentada onde seu povo não se encontra. “É uma tentativa de contato direto com o povo brasileiro”. Legal, mas pra que mesmo?
Cinelândia - local onde Barack Obama faria discurso. Agora será fechado, no teatro municipal do Rio de Janeiro. Sou completamente a favor das relações diplomáticas entre os dois países, mas negociações são bem sucedidas quando os dois lados ganham e, como sabemos, nunca foi bem assim que funciona. Sou contra esse populismo exagerado para o receber, afinal, ele não vem a turismo (ao contrário de muitos que peregrinarão ao Rio para vê-lo) e tenho medo de como será o recebimento apaixonado por parte dos presentes às proximidades do discurso. Sou contra porque temos a cultura do vira lata, que só valoriza o que vem de fora. Não somos capazes de assistir a uma plenária na Assembleia da nossa cidade mas, em se tratando de uma supercelebridade, até treinamos o nosso inglês – estudar em outra ocasião por que? Se Lulinha ainda fosse presidente, estaria se mordendo de inveja. Certamente o está agora de ciumes.
Em tempos em que Oriente Médio passa por crises que redundam no fornecimento de petróleo e que o Brasil passa por momentos de oportunidades e otimismo, é de se esperar que sua agenda de visitas inclua o país para discutir assuntos como relações e acordos comerciais, tecnologia, cadeira permanente no conselho de segurança da ONU e, quiçá, até o fim da exigência do visto para entrar em ambos os países. Que honra, sim. Mas, por favor, Obama, não inclua o povo nisso, pois não sabemos o que é discernimento. Ele está certo em preparar a população brasileira para a sua chegada. Mas será que nós agimos da maneira correta para receber um presidente estrangeiro? Tanquiu veri muchi.

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